A maioria dos textos aqui publicados são ficção. Pontualmente, episódios da minha vida parecem espreitar nas entrelinhas. Não são ficção os textos de opinião.
sexta-feira, 27 de março de 2020
Isolamento para professores
Os tempos que vivemos são diferentes, já o sabemos. Mas é assim mesmo a vida: um conjunto de acontecimentos que tentamos programar, mas que sempre têm a capacidade de nos surpreender. Como em todos os outros dias, penso no lado positivo de tudo: na felicidade de ter uma família - restrita e alargada - coesa e quente; no contentamento de ter amigos que - ainda que ao longe - são insubstituíveis e incríveis; na sorte de conseguir ter um lar com vista para a natureza, para o sol, para a água, para aquilo que nos oferece tranquilidade; na fortuna de possuir os conhecimentos e os meios para estar sempre a apertar os nós que me unem ao mundo - através dos livros, das tecnologias e, acima de tudo, dos amigos que tenho espalhados pelo mundo. Mas - e provavelmente num patamar superior - no privilégio de ser professora neste momento da história. Somos nós os elos imprescindíveis entre os nossos alunos e a realidade. Temos saudades deles e queremos conseguir prendê-los ao mundo. As semanas que se aproximam não são de descanso, como gostaríamos e precisamos até: são semanas de trabalho de planificação, programação e adaptação. Vamos conseguir! Quanto mais vejo, mais acredito. Queridos alunos, e respetivos pais, descansem... as escolas vão conseguir, os professores são capazes. Não vamos agradar a todos e vamos cometer erros, mas não estaremos de braços cruzados.
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
O último teste
Está quase a tocar e eu tenho de estar muito concentrada para
conseguir fazer o teste sem enganos, sem asneiras, organizado e
certeiro. As férias estão quase a chegar e este é só mais um esforço
para que tudo corra bem. Saturno, Júpiter, Neptuno. Latitude.
Meridiano... Ai... Está tudo a misturar-se dentro de mim. As galáxias
com as montanhas, os planetas com os rios. Chega! Vou desligar o cérebro
e não penso mais nisto. Quando lá chegar logo se vê. Vou fazer como o
Manel e divertir-me sem stress. Afinal, é só um teste. Só um teste... Só
um teste!!!
Não foi assim tão mau. Afinal aquilo até estava escrito em português... É a minha língua! Que raio! Vou tirar boa nota, tenho a certeza. Claro que entretanto já queimei dois ou três neurónios com o nervoso enquanto o Manel continua divertido e animado. Um dia ainda hei-se saber ser assim. Claro que as notas dele não são como as minhas. Eu tiro sempre melhores notas... Mas, na verdade, isso interessa para quê? Fico mais rica? Mais esperta? Ou não... Se calhar sim. Quero acreditar que fico mais esperta e isso fará de mim mais rica um dia. E isso que importa? Andam sempre a dizer que o que interessa é ser feliz. Melhor nota a Geografia quer dizer que serei mais feliz?? Duvido... Cada vez que penso no Universo fico é mais confusa... e assustada! Uma bola suspensa à volta do Sol. E se caímos? Agarramo-nos onde? Aos meridianos ou aos trópicos?!
Acabou! Não penso mais nisso! O teste até já acabou e agora vou relaxar, espreitar o Luís do 9ºD a ver se ele hoje olha para mim e depois vou ao bar comer qualquer coisa. Lá está o Manel, sempre o primeiro da fila para comer. Isso é que ele é, sempre divertido e sempre de barriga cheia. Se calhar é esse o segredo. Vou lanchar a ver se me animo.
- Pára de me chatear, Maria! Não vou falar mais no teste. Estou a comer a minha nata e concentrada nas maravilhas que estas calorias vão fazer pela minha boa disposição! Já viste o Luís? Anda. Vamos lá ver se ele hoje olha para mim...
Está ali ao fundo... A falar com a Teresa! Aquela enjoada. Não percebo qual é a graça daquela miúda. Só porque tem o cabelo loiro acha que é muito bonita... Ou os outros é que acham, sei lá. Vou passar mesmo à frente. Se ele não olhar para mim, nunca mais penso nele! Prometo.
Estou quase. Ele está ali. Vou passar. Não vou olhar. A Teresa já está a ir embora. E...
- Filipa!
Ai... Estão a chamar por mim. Ele está a chamar por mim. É o Luís! Não acredito, é mesmo a voz dele.
- Filipa, correu bem o teste de Geografia?
Lá lhe respondi que sim e acabei a falar na porcaria do teste outra vez. Já não é mau: melhor isto do que ele nem ter olhado para mim. Agora é só pensar noutras estratégias e sei que vou ser feliz. Com testes ou sem testes.
E depois vi o Manel. Estava feliz, claro. Preparadíssimo para as férias. Com boas notas ou más notas. Para ele era igual.
Saímos todos a correr, o portão grande estava fechado e o Manel estava a tentar abri-lo. Mas não conseguia. Pudera! A empurrar pela parte mais próxima das dobradiças... “Ca” burro!
- Ó Manel! Aplicas menos força quanto mais longe empurrares da dobradiça. Básico! Aprendemos em Físico-química. Ora vê! - E o portão abriu-se rapidamente e sem esforço. O Manel, divertido, a olhar para mim. E o Luís, a passar por mim, impressionado.
E eu, na certeza de que estudar me faria mais feliz, fui de férias. Não pensei mais nos testes, mas pensei muito no Luís.
Não foi assim tão mau. Afinal aquilo até estava escrito em português... É a minha língua! Que raio! Vou tirar boa nota, tenho a certeza. Claro que entretanto já queimei dois ou três neurónios com o nervoso enquanto o Manel continua divertido e animado. Um dia ainda hei-se saber ser assim. Claro que as notas dele não são como as minhas. Eu tiro sempre melhores notas... Mas, na verdade, isso interessa para quê? Fico mais rica? Mais esperta? Ou não... Se calhar sim. Quero acreditar que fico mais esperta e isso fará de mim mais rica um dia. E isso que importa? Andam sempre a dizer que o que interessa é ser feliz. Melhor nota a Geografia quer dizer que serei mais feliz?? Duvido... Cada vez que penso no Universo fico é mais confusa... e assustada! Uma bola suspensa à volta do Sol. E se caímos? Agarramo-nos onde? Aos meridianos ou aos trópicos?!
Acabou! Não penso mais nisso! O teste até já acabou e agora vou relaxar, espreitar o Luís do 9ºD a ver se ele hoje olha para mim e depois vou ao bar comer qualquer coisa. Lá está o Manel, sempre o primeiro da fila para comer. Isso é que ele é, sempre divertido e sempre de barriga cheia. Se calhar é esse o segredo. Vou lanchar a ver se me animo.
- Pára de me chatear, Maria! Não vou falar mais no teste. Estou a comer a minha nata e concentrada nas maravilhas que estas calorias vão fazer pela minha boa disposição! Já viste o Luís? Anda. Vamos lá ver se ele hoje olha para mim...
Está ali ao fundo... A falar com a Teresa! Aquela enjoada. Não percebo qual é a graça daquela miúda. Só porque tem o cabelo loiro acha que é muito bonita... Ou os outros é que acham, sei lá. Vou passar mesmo à frente. Se ele não olhar para mim, nunca mais penso nele! Prometo.
Estou quase. Ele está ali. Vou passar. Não vou olhar. A Teresa já está a ir embora. E...
- Filipa!
Ai... Estão a chamar por mim. Ele está a chamar por mim. É o Luís! Não acredito, é mesmo a voz dele.
- Filipa, correu bem o teste de Geografia?
Lá lhe respondi que sim e acabei a falar na porcaria do teste outra vez. Já não é mau: melhor isto do que ele nem ter olhado para mim. Agora é só pensar noutras estratégias e sei que vou ser feliz. Com testes ou sem testes.
E depois vi o Manel. Estava feliz, claro. Preparadíssimo para as férias. Com boas notas ou más notas. Para ele era igual.
Saímos todos a correr, o portão grande estava fechado e o Manel estava a tentar abri-lo. Mas não conseguia. Pudera! A empurrar pela parte mais próxima das dobradiças... “Ca” burro!
- Ó Manel! Aplicas menos força quanto mais longe empurrares da dobradiça. Básico! Aprendemos em Físico-química. Ora vê! - E o portão abriu-se rapidamente e sem esforço. O Manel, divertido, a olhar para mim. E o Luís, a passar por mim, impressionado.
E eu, na certeza de que estudar me faria mais feliz, fui de férias. Não pensei mais nos testes, mas pensei muito no Luís.
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
T2+1 com vista sobre a cidade
Cá estou. São 7 da manhã e o cheiro neste elevador já está insuportável. Maldita a hora em que achei o 15º andar a última bolacha do pacote. Está decidido, hoje passo na imobiliária e ponho isto à venda. Basta de vistas sobre a cidade! Basta de horizontes infinitos! Basta de pessoinhas lá em baixo como formigas! Basta de pagar este condomínio infernal! Basta!
Todos os dias um episódio diferente, se eu quisesse viver numa novela ficava em casa a ver televisão. Mas o que terá sido desta vez? É cheiro a mar? A sargaço? Há algo aqui que não está bem.
Não aguento mais! Stop!! Estou no 7º andar e a partir daqui desço a pé.
A porta abre-se - abrupta - e o ar que entra limpa-me a narinas e eu agradeço. Mas a corrente de ar faz levantar do chão uma pena. Uma pena? Não é possível que o episódio de hoje tenha uma pena...
Desço as escadas, incomodada. O cheiro afinal não estava fechado no elevador e pelas escadas encontro outras penas. Mais penas? No 5º andar, um pouco depois de tirar os sapatos para conseguir descer em segurança, encontro... incrédula: duas gaivotas! Aninhadas no tapete do 5º direito traseiras, pote de água, pote de arroz. O cheiro a inferno e a postura de ataque. Os bicos ameaçadores enfrentaram-me e eu defendi-me. Atirei-lhes os sapatos, desci a correr.
Na imobiliária, acrescentei: “É excelente, vistas sobre a cidade, horizontes infinitos e uma sensação de ter a natureza dentro de portas! A não perder!”
quinta-feira, 21 de junho de 2018
Perdoa-me se não te vejo
De que servem uns olhos se não os uso como deve ser?
Não são uns olhos que me fazem ver, são os olhos que escolho e teimo em privilegiar. Não há obrigatoriedade no uso dos que estão no rosto, podem servir ou não para o que precisamos de enfrentar. Eu escolho teimosamente os outros, os que não se vêem mas que vêem. Escolho olhar-te e encontrar um raio de luz, um som de trompete ou as teclas de um piano. És música e perfeição, ritmo, cores intensas e outras vezes apenas pastel. Não és todos os dias igual. Ontem eras uma montanha que se pode percorrer para sempre, hoje és o mar que apetece provar.
Não vejo os fios de cabelo, vejo linhas de tempo intermináveis. Não vejo as unhas em formas irregulares, vejo toques e carícias e luas de várias formas. Não vejo sinais espalhados à toa, vejo raízes e ramos e folhas e frutos que só tu consegues ser.
Olho-te e trespasso-te com desejos e sonhos e doces vontades. Desculpa se não vejo que às vezes também és só um ser humano. Desculpa se não deixo que erres o passo.
Perdoa-me se não te vejo com os olhos do rosto e só com os olhos da saudade.
Não são uns olhos que me fazem ver, são os olhos que escolho e teimo em privilegiar. Não há obrigatoriedade no uso dos que estão no rosto, podem servir ou não para o que precisamos de enfrentar. Eu escolho teimosamente os outros, os que não se vêem mas que vêem. Escolho olhar-te e encontrar um raio de luz, um som de trompete ou as teclas de um piano. És música e perfeição, ritmo, cores intensas e outras vezes apenas pastel. Não és todos os dias igual. Ontem eras uma montanha que se pode percorrer para sempre, hoje és o mar que apetece provar.
Não vejo os fios de cabelo, vejo linhas de tempo intermináveis. Não vejo as unhas em formas irregulares, vejo toques e carícias e luas de várias formas. Não vejo sinais espalhados à toa, vejo raízes e ramos e folhas e frutos que só tu consegues ser.
Olho-te e trespasso-te com desejos e sonhos e doces vontades. Desculpa se não vejo que às vezes também és só um ser humano. Desculpa se não deixo que erres o passo.
Perdoa-me se não te vejo com os olhos do rosto e só com os olhos da saudade.
quarta-feira, 14 de março de 2018
A minha própria síndrome do ninho vazio
A propósito de um texto que vai circulando por aí acerca da síndrome do ninho vazio, mas do ponto de vista dos filhos, mais especificamente, de uma filha.
Eu era uma filha muito agarrada ao ninho, quer dizer, mais agarrada às asas da mãe do que propriamente ao ninho; ainda assim presa aos confortos de mãe, pai e irmão e às rotinas que cultivávamos. Ao sábado era o dia das limpezas e aos domingos íamos almoçar fora, durante a semana à noite a mãe cozinhava e eu ficava por ali, a conversar - muito -, a contar tudo o que acontecia na escola (e também o que eu gostava que acontecesse e o que não acontecia e ainda o que eu imaginava que podia acontecer)! Mas enquanto falava, observava. Quase nunca cozinhei, nem me lembro de ter sido ensinada formalmente a cozinhar, mas eu estava sempre ali, a ajudar, a aprender sem saber.
Quando saí do ninho, aos 18 anos, não me lembro de ter sofrido de qualquer síndrome, nem sequer de pensar se a minha mãe estaria a passar por isso.
Eu tinha 18 anos. Fui viver sozinha a 100km de distância do ninho. Almoçava na cantina da universidade e tentava cozinhar ao jantar, ia para as aulas e tentava fugir a algumas praxes. Ia jogar snooker ou flippers para o salão de jogos, ficava a estudar até tarde, ia a jantares ou só tomar um café, participava em grupos de tertúlias e ia até casa de colegas. Ia aos ensaios do coro e dávamos concertos pela rua. Eu punha a roupa na máquina e tentava lembrar-me de a estender e, aos fins-de-semana, voltava ao ninho, às vezes de surpresa!
Não havia telemóveis nem bips, e a cabine telefónica mais perto de minha casa ficava a cerca de 300 metros com 50 degraus (a subir) pelo caminho. Fazia coleção de credifones e adorava o 090 para fazer chamadas a pagar no destino.
Tinha colegas do Porto, de Chaves, de Santarém, de Lisboa, do Algarve, de Braga... Colegas mais velhos e outros da mesma idade, havia serões infinitos de partilha de experiências e de conversas completamente novas: éramos adultos - coisa recente - e achávamos que coversávamos sobre assuntos que eram importantes. E eram.
Ao fim-de-semana, o ninho estava igual: com mãe, pai e irmão. Com amigos que, em alguns casos, também só voltavam à sexta-feira e saíamos para partilharmos copos, conversas e experiências.
Foi um ano de descobertas, de conquistas, de aprendizagens. E a partir de certa altura também de alguns medos. A minha mãe estava doente e deixara de trabalhar. Passava temporadas na cama e outras no hospital. As rotinas estavam temporariamente - acreditava - alteradas.
Acho que eu não tive tempo para sentir o ninho vazio: havia tanta coisa para fazer, tanto para estudar, tanto para aprender. E o ninho estava onde sempre esteve. E eu regressava, e aninhava.
Acho que não tive sequer tempo para pensar no que o ninho perdia pelo facto de eu estar ausente.
Um dia regressei... E o ninho estava de facto vazio.
Felizmente soubemos preenchê-lo de novo. Nunca mais ficou igual, mas conseguimos construir um outro, pleno de sorrisos, de felicidade.
Eu era uma filha muito agarrada ao ninho, quer dizer, mais agarrada às asas da mãe do que propriamente ao ninho; ainda assim presa aos confortos de mãe, pai e irmão e às rotinas que cultivávamos. Ao sábado era o dia das limpezas e aos domingos íamos almoçar fora, durante a semana à noite a mãe cozinhava e eu ficava por ali, a conversar - muito -, a contar tudo o que acontecia na escola (e também o que eu gostava que acontecesse e o que não acontecia e ainda o que eu imaginava que podia acontecer)! Mas enquanto falava, observava. Quase nunca cozinhei, nem me lembro de ter sido ensinada formalmente a cozinhar, mas eu estava sempre ali, a ajudar, a aprender sem saber.
Quando saí do ninho, aos 18 anos, não me lembro de ter sofrido de qualquer síndrome, nem sequer de pensar se a minha mãe estaria a passar por isso.
Eu tinha 18 anos. Fui viver sozinha a 100km de distância do ninho. Almoçava na cantina da universidade e tentava cozinhar ao jantar, ia para as aulas e tentava fugir a algumas praxes. Ia jogar snooker ou flippers para o salão de jogos, ficava a estudar até tarde, ia a jantares ou só tomar um café, participava em grupos de tertúlias e ia até casa de colegas. Ia aos ensaios do coro e dávamos concertos pela rua. Eu punha a roupa na máquina e tentava lembrar-me de a estender e, aos fins-de-semana, voltava ao ninho, às vezes de surpresa!
Não havia telemóveis nem bips, e a cabine telefónica mais perto de minha casa ficava a cerca de 300 metros com 50 degraus (a subir) pelo caminho. Fazia coleção de credifones e adorava o 090 para fazer chamadas a pagar no destino.
Tinha colegas do Porto, de Chaves, de Santarém, de Lisboa, do Algarve, de Braga... Colegas mais velhos e outros da mesma idade, havia serões infinitos de partilha de experiências e de conversas completamente novas: éramos adultos - coisa recente - e achávamos que coversávamos sobre assuntos que eram importantes. E eram.
Ao fim-de-semana, o ninho estava igual: com mãe, pai e irmão. Com amigos que, em alguns casos, também só voltavam à sexta-feira e saíamos para partilharmos copos, conversas e experiências.
Foi um ano de descobertas, de conquistas, de aprendizagens. E a partir de certa altura também de alguns medos. A minha mãe estava doente e deixara de trabalhar. Passava temporadas na cama e outras no hospital. As rotinas estavam temporariamente - acreditava - alteradas.
Acho que eu não tive tempo para sentir o ninho vazio: havia tanta coisa para fazer, tanto para estudar, tanto para aprender. E o ninho estava onde sempre esteve. E eu regressava, e aninhava.
Acho que não tive sequer tempo para pensar no que o ninho perdia pelo facto de eu estar ausente.
Um dia regressei... E o ninho estava de facto vazio.
Felizmente soubemos preenchê-lo de novo. Nunca mais ficou igual, mas conseguimos construir um outro, pleno de sorrisos, de felicidade.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Lara (um rascunho)
O meu nome é Lara. Muitas vezes me dizem que ao olhar para mim veem a minha mãe. Eu própria, por vezes, nos dias em que estou mais bonita, vejo o rosto dela refletido no espelho. Não é nada de único ou inaudito, talvez apenas uma consequência lógica de genes, cromossomas, momentos de partilha e amor. Puro amor.
Tenho, fisicamente, algumas semelhanças com o meu pai, e algumas das minhas saudáveis manias aprendi-as com ele. Há no meu pai uma extrema capacidade de adaptação que eu julgo ter herdado, embora no caso dele a adaptação venha de uma natural aceitação da realidade, enquanto no meu caso ela venha do fascínio que a vida me provoca.
Contudo, as semelhanças físicas são, de facto, predominantemente com a minha mãe; exceção feita aos olhos verdes que não me tocaram em sorte. No que se refere à personalidade, posso, com alguma propriedade, dizer que herdei inúmeros traços dela, embora algumas características se tenham, provavelmente, aguçado e provocado aquilo que ela algumas vezes caracterizava e sublinhava como 'Que feitio!...'
Penso, talvez em demasia, nas razões que me levam a ser como sou e se estes meus dramas e loucuras vieram já no pacote inicial, ou se foram adquiridos ao longo da vida como faixas bónus. Desconfio das prescrições astrológicas que me ameaçam uma personalidade demasiadamente afetiva e emotiva, como se as tentativas voluntárias e trabalhosas de desenvolvimento de técnicas de autocontrolo fossem completamente inúteis.
Felizmente, horas a fio de isolamento por condução no meu carro para o trabalho deram-me a oportunidade de milhares de minutos de profunda meditação, nas quais atingi um estado de plenitude altamente invejável. Devo-o claramente à crise que se instalou no sistema educativo português, que, procurando professores com alto nível de estabilidade emocional, promove estes, digamos, SPAs itinerantes. Felizmente, sou uma excelente condutora e tenho tido a oportunidade de conhecer paisagens invejáveis e indescritíveis. E é, principalmente, nesses momentos que encaro com toda a honestidade as minhas particularidades de personalidade. Aceito, por vezes até com um certo orgulho, o meu, esclareçamos, mau feitio, porque o entendo como parte integrante do que sou sem que - isso, sim, incomodar-me-ia - prejudique os que me rodeiam.
Discorro frequentemente em textos diarísticos e extremamente íntimos, na esperança de um dia serem absolutamente necessários para procurar as razões que desvendem a origem dos meus atos, atitudes ou, na onda do espiritualismo, do meu karma. Não posso, em caso algum, acreditar que são suficientes e, nessa demanda, provavelmente inútil, encontro a necessidade deste texto que agora enceto.
Desvendo, então, um dos objetivos deste texto: explicar aos que me amam as razões do meu 'Que feitio!...'. Como se tornará evidente, este não será, porém, o objetivo principal.
As estórias que compõem um conjunto de vidas entrelaçadas são sempre demasiado complexas para poderem ser transmitidas em todo o seu esplendor através dos relatos orais, ou mesmo de alguns escritos, e muito menos por aquilo que a memória nos deixa trazer para o presente. Lembro-me bem (temos sempre algumas memórias que são claras) de alguém (não me recordo agora quem) me ter dito que nós alteramos as nossas próprias memórias em função do que nos convém a determinada altura da vida, mas que, mais tarde, de tanto repetirmos uma memória não real mas alterada, acreditamos nela ao ponto de a conseguirmos visualizar na tela cinematográfica que trazemos naturalmente incorporada. Isto significa que, quando digo à minha filha que tive sempre boas notas, que estudava imenso, que era extremamente responsável, que nunca terá sido necessário um professor chamar-me a atenção, poderei não estar a contar toda a verdade, embora eu, remexendo os ficheiros mentais da minha vida académica, encontre apenas aquilo que lhe digo. Numa situação ou outra, ao referir estes factos à minha filha na presença do meu pai, posso ter ouvido, como quem não quer a coisa e devidamente afastados da infante, que em tempos também tivera um recadinho na caderneta, ou levara uma palmadinha por algum ato menos responsável.
Não quero, de forma alguma, dizer que apaguei ou alterei todas a minhas memórias que mostram um lado de mim um pouco mais negativo, quis apenas realçar como por vezes nos enganamos a nós próprios para podermos ter as armas absolutamente necessárias num determinado momento da vida.
E esta é uma questão importante. As armas. É impossível ter uma passagem pela vida mais ou menos harmoniosa se não a encararmos como uma luta onde possuir armas adequadas se revela absolutamente fundamental. A memória é uma delas; uma das mais importantes, pese embora a falsidade que por vezes revelam.
Posto isto, procurarei fundamentar estas minhas recordações em alicerces variados, para não me cingir à minha memória que, como eu própria tenho vindo a descobrir, nem sempre me é leal.
Tenho 46 anos. Acredito que mais de metade da minha vida está já vivida e penso que consegui, há poucos anos, encontrar a tranquilidade necessária para vivê-la em plenitude, isto é, perceber quais as armas que me fazem atingir vitórias diariamente. Teriam sido bastante úteis para evitar os trabalhos forçados que tive que desenvolver no passado, mas não as possuía na altura, ou eram ainda tão rudimentares que poucos benefícios me traziam.
O caminho que percorri até aqui chegar foi repleto de acontecimentos, como na vida de qualquer pessoa (suponho), mas estas minhas estórias - penso, por vezes - parecem ter sido delineadas por algum criativo com necessidades de afirmação!
Começo, então, pelo início, não o meu, mas aquele que, de alguma forma, viria a possibilitar a minha existência, a moldar o meu caminho, a influenciar as minhas decisões. Será possível, será mesmo possível que as minhas decisões tenham sido influenciadas por acontecimentos de há décadas atrás? Claro que sim, é o que acontece a toda hora, é o mais comum dos eventos: decisões influenciadas por séculos de história, por gerações de hábitos, por erros inesquecíveis, ou mesmo por sucessos invejados, ou simplesmente desejados.
terça-feira, 24 de outubro de 2017
Revolta fora do Revolto
Quantas vezes já comecei um texto por "Sou professora"? Muitos! E este é mais um.
Sou professora. Já não sou contratada, é verdade; agora pertenço aos quadros do Ministério da Educação. Ao fim de 20 anos de serviço! 20!
Talvez a frase não precise de ponto de exclamação, uma vez que em Portugal aquela afirmação não é uma exclamativa, apenas declarativa, normal, banal, ordinária.
Assim, ao fim de 20 anos, consegui integrar os quadros e começar uma carreira que, por pouco, me escapava por entre os dedos. Finalmente, professora com possibilidade de um trabalho contínuo, sério, estruturado, organizado, bem planeado, a médio e longo prazo. Finalmente numa escola por um período de, pelo menos, 4 anos...
Como diz a minha filha: "Só que não...!"
Pois não. Para conseguir ficar nos quadros tive que arriscar ir para longe da minha casa. Arrisquei. Foi a minha opção. Eu e a minha família achámos que era melhor isto do que a certeza do subsídio de desemprego em setembro, melhor do que a incerteza do tamanho do ordenado quando ficasse colocada. Arrisquei. Foi a minha (nossa) escolha. Porque escolhas destas são sempre da família.
E assim estaria, conformada com a minha decisão, a lecionar em Lisboa, a 300km do meu (P)porto. A 3 horas de distância da minha filha, do meu marido, do meu pai, do meu irmão, do meu sobrinho, da minha família, dos meus amigos que são tanto quanto família. Sim, tive a sorte de até agora nunca estar muito longe deles. Também tinha sido essa a minha escolha: contratada, só perto dos meus.
Infelizmente, esta história não se resume a escolhas. Antes assim fosse. Fiquei colocada em Lisboa, por decisão injusta do Ministério, enquanto colegas menos graduados (dos quadros - como eu) ficaram mais perto de casa. E agora, condenada, aceito. Porque pelos visto não é possível fazer-se justiça. Porque pelos vistos o Estado é obrigado a dar proteção e defesa a um criminoso, mas pode maltratar professores. E ninguém se importa. Ninguém se importa.
Este princípio (de ano, de carreira, de solidão, de medo) ainda não vai a meio, mas tem Fi. E isso significa que tenho trabalho, que adoro os meus alunos, que concretizo um projeto que me está a encantar, que gosto dos colegas que conheci nesta nova escola. Que tenho amigos que resistem a todos os quilómetros, que tenho uma família de ouro. Que sou feliz. Feliz, porque mesmo a 300km, cada minuto significa vida. E amor.
É uma revolta, fora do Revolto.
Sou professora. Já não sou contratada, é verdade; agora pertenço aos quadros do Ministério da Educação. Ao fim de 20 anos de serviço! 20!
Talvez a frase não precise de ponto de exclamação, uma vez que em Portugal aquela afirmação não é uma exclamativa, apenas declarativa, normal, banal, ordinária.
Assim, ao fim de 20 anos, consegui integrar os quadros e começar uma carreira que, por pouco, me escapava por entre os dedos. Finalmente, professora com possibilidade de um trabalho contínuo, sério, estruturado, organizado, bem planeado, a médio e longo prazo. Finalmente numa escola por um período de, pelo menos, 4 anos...
Como diz a minha filha: "Só que não...!"
Pois não. Para conseguir ficar nos quadros tive que arriscar ir para longe da minha casa. Arrisquei. Foi a minha opção. Eu e a minha família achámos que era melhor isto do que a certeza do subsídio de desemprego em setembro, melhor do que a incerteza do tamanho do ordenado quando ficasse colocada. Arrisquei. Foi a minha (nossa) escolha. Porque escolhas destas são sempre da família.
E assim estaria, conformada com a minha decisão, a lecionar em Lisboa, a 300km do meu (P)porto. A 3 horas de distância da minha filha, do meu marido, do meu pai, do meu irmão, do meu sobrinho, da minha família, dos meus amigos que são tanto quanto família. Sim, tive a sorte de até agora nunca estar muito longe deles. Também tinha sido essa a minha escolha: contratada, só perto dos meus.
Infelizmente, esta história não se resume a escolhas. Antes assim fosse. Fiquei colocada em Lisboa, por decisão injusta do Ministério, enquanto colegas menos graduados (dos quadros - como eu) ficaram mais perto de casa. E agora, condenada, aceito. Porque pelos visto não é possível fazer-se justiça. Porque pelos vistos o Estado é obrigado a dar proteção e defesa a um criminoso, mas pode maltratar professores. E ninguém se importa. Ninguém se importa.
Este princípio (de ano, de carreira, de solidão, de medo) ainda não vai a meio, mas tem Fi. E isso significa que tenho trabalho, que adoro os meus alunos, que concretizo um projeto que me está a encantar, que gosto dos colegas que conheci nesta nova escola. Que tenho amigos que resistem a todos os quilómetros, que tenho uma família de ouro. Que sou feliz. Feliz, porque mesmo a 300km, cada minuto significa vida. E amor.
É uma revolta, fora do Revolto.
terça-feira, 1 de agosto de 2017
Carta aberta a Richard Zimler
Caro Richard Zimler,
começo esta carta por lhe relatar fielmente, tanto quanto um sonho é fiável, os acontecimentos passados na noite de ontem. Adormeço sempre muito bem, sem me perder em divagações que me prejudiquem a chegada do sono, embora isso seja compensado com um acordar prematuro - pelo menos para quem está de férias - lá pelas 7h da manhã. Por isso, os eventos que aqui partilho ocorreram perto dessa hora, no mundo fantástico e misterioso dos meus sonhos.
Eu estava a visitar um palácio lindíssimo, enorme, com salas imensas e grandes escadarias interiores e exteriores. Havia uma guia que me acompanhava e me explicava todas as características de cada uma das salas, histórias e estórias, detalhes e curiosidades de cada uma das pedras ali dispostas - ou assim me lembro. Parte integrante desse palácio - infelizmente não me recordo se real ou apenas imaginário - eram umas termas com propriedades milagrosas, onde um conjunto considerável de pessoas se encontrava. A visita continuou até um salão muito espaçoso, com longas mesas pintadas aleatoriamente com grupos de pessoas a fazer refeições.
Foi no meio desses grupos de pessoas que detetei o escritor Richard Zimler e comentei algo como "Olha, está ali o Richard Zimler! Gosto tanto do que ele escreve!" A minha guia, que havia entretanto desaparecido, não ouviu o meu comentário, mas alguém que permanecia de pé junto a mim ouviu-me e disse: "É meu aluno! Veio no meu grupo! É, de facto, extraordinário."
E eu, ainda com aquela curiosidade de quem enfrenta um ídolo, continuei: "Ai, sim? Professora? De quê?".
Talvez a resposta não tenha sido das mais interessantes, pois lembro-me apenas de ela ter referido algo relacionado com um workshop e uma faculdade - talvez a de Letras do Porto - e a confirmação do escritor no grupo liderado pela professora em questão.
Sentei-me, penso que aguardando a minha refeição.
Alguns momentos depois, na indefinição da passagem do tempo a que um sonho obriga, olhei para a minha frente e o escritor estava mesmo ali, dois lugares para a minha direita, mas na minha mesa, mesmo ali à minha frente. Lembro-me de me sentir envergonhada por querer iniciar algum tipo de diálogo (não que isso me seja difícil!!), mas - respirando fundo - saiu: "Perdoe-me por estar a incomodá-lo mas queria apenas dizer-lhe that I am an absolute fan of your work."
Não sei se a partir daqui a conversa se terá processado ou não em inglês, mas sei que aquela frase me ficou gravada naquela língua.
Com simpatia, como imagino que seja na realidade, respondeu-me agradecendo e a conversa continuou. Não recordo os detalhes do diálogo que se encetou - até porque devo confessar que a minha admiração se deve fundamentalmente a três elementos: um livro que li e que me encantou, outro livro que me fez admirar a sua capacidade de trabalho e os seus posts de Facebook que vou, amiúde, acompanhando - mas no sonho a conversa foi longa.
Talvez tenhamos falado sobre homossexualidade, preconceito, políticas atuais, adoção, barrigas de aluguer, ou de tantos outros temas que sei seriam empolgantes numa conversa com Richard Zimler.
Talvez o palácio que visitei fosse Portugal, e os visitantes os turistas que percorrem o nosso país. Talvez as pessoas a almoçar fossem a população nas suas rotinas diárias, e o escritor apenas um elemento de destaque como há tantos na sociedade.
Talvez não seja nada disso e eu tivesse apenas relembrado um post recente do Facebook ou algumas linhas do Evangelho segundo Lázaro que terminei há poucos dias.
Sei que isto me deu ainda mais vontade para continuar a descoberta do trabalho de Richard Zimler e uma última conclusão (a razão desta carta aberta): se sonharem comigo, contem-me! Eu sonhei com Richard Zimler e resolvi partilhar.
Com muita admiração,
Filomena Morais
começo esta carta por lhe relatar fielmente, tanto quanto um sonho é fiável, os acontecimentos passados na noite de ontem. Adormeço sempre muito bem, sem me perder em divagações que me prejudiquem a chegada do sono, embora isso seja compensado com um acordar prematuro - pelo menos para quem está de férias - lá pelas 7h da manhã. Por isso, os eventos que aqui partilho ocorreram perto dessa hora, no mundo fantástico e misterioso dos meus sonhos.
Eu estava a visitar um palácio lindíssimo, enorme, com salas imensas e grandes escadarias interiores e exteriores. Havia uma guia que me acompanhava e me explicava todas as características de cada uma das salas, histórias e estórias, detalhes e curiosidades de cada uma das pedras ali dispostas - ou assim me lembro. Parte integrante desse palácio - infelizmente não me recordo se real ou apenas imaginário - eram umas termas com propriedades milagrosas, onde um conjunto considerável de pessoas se encontrava. A visita continuou até um salão muito espaçoso, com longas mesas pintadas aleatoriamente com grupos de pessoas a fazer refeições.
Foi no meio desses grupos de pessoas que detetei o escritor Richard Zimler e comentei algo como "Olha, está ali o Richard Zimler! Gosto tanto do que ele escreve!" A minha guia, que havia entretanto desaparecido, não ouviu o meu comentário, mas alguém que permanecia de pé junto a mim ouviu-me e disse: "É meu aluno! Veio no meu grupo! É, de facto, extraordinário."
E eu, ainda com aquela curiosidade de quem enfrenta um ídolo, continuei: "Ai, sim? Professora? De quê?".
Talvez a resposta não tenha sido das mais interessantes, pois lembro-me apenas de ela ter referido algo relacionado com um workshop e uma faculdade - talvez a de Letras do Porto - e a confirmação do escritor no grupo liderado pela professora em questão.
Sentei-me, penso que aguardando a minha refeição.
Alguns momentos depois, na indefinição da passagem do tempo a que um sonho obriga, olhei para a minha frente e o escritor estava mesmo ali, dois lugares para a minha direita, mas na minha mesa, mesmo ali à minha frente. Lembro-me de me sentir envergonhada por querer iniciar algum tipo de diálogo (não que isso me seja difícil!!), mas - respirando fundo - saiu: "Perdoe-me por estar a incomodá-lo mas queria apenas dizer-lhe that I am an absolute fan of your work."
Não sei se a partir daqui a conversa se terá processado ou não em inglês, mas sei que aquela frase me ficou gravada naquela língua.
Com simpatia, como imagino que seja na realidade, respondeu-me agradecendo e a conversa continuou. Não recordo os detalhes do diálogo que se encetou - até porque devo confessar que a minha admiração se deve fundamentalmente a três elementos: um livro que li e que me encantou, outro livro que me fez admirar a sua capacidade de trabalho e os seus posts de Facebook que vou, amiúde, acompanhando - mas no sonho a conversa foi longa.
Talvez tenhamos falado sobre homossexualidade, preconceito, políticas atuais, adoção, barrigas de aluguer, ou de tantos outros temas que sei seriam empolgantes numa conversa com Richard Zimler.
Talvez o palácio que visitei fosse Portugal, e os visitantes os turistas que percorrem o nosso país. Talvez as pessoas a almoçar fossem a população nas suas rotinas diárias, e o escritor apenas um elemento de destaque como há tantos na sociedade.
Talvez não seja nada disso e eu tivesse apenas relembrado um post recente do Facebook ou algumas linhas do Evangelho segundo Lázaro que terminei há poucos dias.
Sei que isto me deu ainda mais vontade para continuar a descoberta do trabalho de Richard Zimler e uma última conclusão (a razão desta carta aberta): se sonharem comigo, contem-me! Eu sonhei com Richard Zimler e resolvi partilhar.
Com muita admiração,
Filomena Morais
sábado, 22 de julho de 2017
Aprendizagens para partilhar (1)
Limpeza pirolítica
Sabem o que é? Eu acho muito útil saber e, portanto, partilhar.
A autolimpeza pirolítica consiste num processo de aquecimento de fornos elétricos a temperaturas de 500ºC, que carboniza qualquer resíduo que possa existir no forno. Depois, basta limpar os resíduos com uma esponja ou pano de microfibres. Durante a limpeza, a porta do forno é trancada automaticamente para garantir que não é aberta durante o aquecimento a alta temperatura. Além disso, os fornos elétricos com limpeza pirolítica têm sistema de porta fria, isto é, a porta do forno nunca atinge valores acima dos 50ºC.
Interessante, não é?
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Olhar verde
Há alunos que são passageiros de um barco que balança e avança, sem medo do vento que sopra, sem medo da chuva que cai, sem medo do sol abrasador que cansa os músculos e entorpece os sentidos.
Há alunos - adolescentes - que são homens e mulheres com valor, com futuro, com sonhos e projetos.
Dêem-me mais destes meninos e meninas que querem crescer e que me ouvem com sede. São poucos, mas são, talvez, os suficientes para salvar o mundo.
Olhar o mundo com olhos verdes.
sexta-feira, 17 de março de 2017
A vida como um mar
Estava sentada num pequeno degrau que descia para a praia. O dia estava sereno: não muito quente, mas a ausência de vento oferecia uma leve sensação de conforto que só era quebrada pelo intermitente som das ondas a chegarem à praia. As mini-explosões de água a bater na areia incomodavam-lhe os sentidos, pareciam estrangeiras àquela serenidade, elementos que corrompiam a paz que emanava do local. A vontade dela era encontrar tranquilidade e por isso descera até à praia, esperando senti-la ali, onde tantos afirmavam que se encontrava. Olhava fixamente o mar, lá longe onde era calmo, tentando ignorar o enrolar ruidoso mais perto de si.
A decisão tinha de ser tomada e o tempo passava ao ritmo enervante das ondas do mar, sem parar, sem permitir uma pausa para que o silêncio trouxesse as respostas. Sabia bem que estavam dentro de si, embora se rendesse, por vezes, à atraente tentação de as encontrar nos outros. É mais fácil, talvez, escutar atentamente os conselhos alheios e decidir assim, livre de culpa, como indicação exterior contra a qual não se pode lutar. Porém, a educação que recebera impedia que se deixasse levar pelo que lhe era exterior, pelo que até pudesse ser mais fácil, pela decisão que não trouxesse sofrimento a ninguém, a não ser a ela.
Ele era o candidato ideal, não havia muito a apontar que pudesse servir como desculpa: educado, trabalhador, esforçado e dedicado. Além disso, seria covarde inventar nele as razões que lá não estavam. Desde o pedido que o tempo passara a ser pesado, que a ausência se transformara num refúgio, mas também que a realidade se impusera sem subterfúgios. Nada se alterara, na verdade, o mundo era o mesmo, as pessoas exatamente as mesmas, os sentimentos também.
Queria fazer jus à educação que recebera e ser capaz de enfrentar as lutas mais complicadas, mas esbarrava na impossibilidade de evitar o sofrimento, multiplicado pelos minutos que antecediam a resposta.
Desde o fim da adolescência que não havia grandes dúvidas dentro de si, a luta interior tinha terminado mais ou menos com a chegada da vida adulta. Mas depois, a simpatia, o charme, o carisma dele e principalmente a dedicação fizeram-na pensar que talvez fosse possível também aquela solução. Que talvez o amor, mesmo que mais intenso de um só dos lados, pudesse superar tudo. Era tão mais serena a hipótese de conseguir fazer parte de um mundo que já estava apresentado, com o qual não teria de lutar, sem tumultos para enfrentar... E tentou. Passaram anos numa aparente tranquilidade que tentava a todo o custo apreciar, mas as ondas continuavam a bater ruidosamente na areia.
O mar estava calmo, não havia vento e estava sol. Mas a inadiável chegada das ondas à praia fazia barulho. E incomodava-a.
A decisão estava dentro dela: ou no mar.
Não havia - ainda - nenhuma ela. Mas o ele não podia ser mais do que amigo. Talvez até a proximidade que conseguiram construir, apesar de tudo, tivesse já desvelado a realidade e, incapaz de a questionar diretamente, inventara o pedido: a hora de forçar a verdade.
Pouco importa, pensará ela, se ele já sabia ou não. Os factos serão sempre os mesmos, bem como o ruído do bater das ondas.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Os maricas
Quando nascem, o amor que inspiram é incomensurável, são fofinhos, lindinhos, enternecedores, uns doces. E é verdade: os bebés cheiram bem, têm bochechas rosadas que dão vontade de apertar, os olhos, nariz, orelhas e sobrancelhas parecem desenhados com detalhes só possíveis nas mão de grandes artistas. São adoráveis.
Depois, vão crescendo lentamente, ao ritmo de milímetros e gramas por dia, e continuam seres inacreditavelmente amorosos: correm, dão gargalhadas, tropeçam, brincam, dão beijinhos e até aprendem a atirá-los com as mãos.
Mais à frente, os sons das palavras vão saindo divertidamente trocados, as roupinhas preenchem corpos que parecem amostras de gente grande, vão concretizando habilidades e espantando todos com competências inesperadas.
São assim todos os bebés: meninos e meninas, mais magrinhos ou mais gordinhos, pretinhos ou branquinhos.Tão adoravelmente frágeis que queremos proteger.
E, na maior parte das vezes, conseguimos; protegemo-los do frio, do vento, da chuva, da terra, do pó, da areia, do lixo, do sol, do calor, até dos ácaros e de outros micro-organismos. Há gorros que tapam as orelhas, lenços que cobrem o pescoço, luvas que escondem as mãozinhas, galochas que isolam os pés, cremes que fornecem escudos à pele e óculos que impedem a passagem de raios nocivos.
Mas ainda mais importante do que tudo isso, há mãos que lhes lavam as mãos (e os pés, e o pescoço, e as orelhas, e o rabinho) - fica tudo mesmo muito limpinho. Há mãos que lhes seguram as mãos enquanto atravessam estradas e percorrem caminhos. Há mãos que lhes cortam o pão do lanche e lhes barram a manteiga. Há mãos que lhes apertam os cordões para não tropeçarem. Há mãos que lhes penteiam o cabelo para não ficar desalinhado. Há mãos que lhes lavam a louça para não se magoarem. Há mãos que lhes preparam a caneca de leite para não perderem tempo.
Há ainda mãos que lhes cortam o bife porque é muito difícil, há mãos que lhes preparam a mochila porque dá muito trabalho. Há mãos que os levam até ao portão de dentro da escola porque o caminho é perigoso, às vezes até há braços que os levam ao colo porque o caminho é longo.
Há tudo o que possa ajudar os meninos e meninas, porque o mundo é um perigo, o mundo é um abismo, o mundo - agora - é muito diferente. O mundo agora está cheio de crianças e jovens que permanecem bebés.
E, de repente, há cérebros que não precisam de ser ligados. Permanecem em stand by, porque há mãos que lhes fazem tudo.
Esses são os maricas: não os outros.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Ficção por encomenda
O Eurico
A história que vos vou contar não é assim muito interessante, porque é sobre a minha vida, e a minha vida não se pode dizer que seja a coisa mais emocionante do mundo. Ainda assim, há vidas piores e o que vos vou contar mostra que eu aprendi algumas coisinhas ao longo dos anos.
Quando eu tinha 13 anos e andava na escola, achava aquilo tudo uma grande seca: eram muitas aulas e muitos professores e todos diziam que tudo era muito importante, e eu não conseguia ver muito bem como é que aquilo ia servir para alguma coisa no futuro.
Na minha turma havia muita gente como eu, quer dizer, havia de tudo: pessoal que não gostava muito da escola, pessoal que adorava a escola, pessoal que detestava a escola e pessoal que nem ia à escola… Esses, coitados, eram os piores. Eles até queriam ir, afinal, havia sempre coisas divertidas para fazer, pelo menos nos intervalos. Mas não podiam. Um, lembro-me bem, tinha a mãe muito doente e um irmão mais pequeno: a maior parte das vezes tinha de ficar a tomar conta dele e da mãe. Nós gozávamos com ele quando ele aparecia, porque não sabíamos o motivo de ele faltar tanto - só soubemos mais tarde. Outro também raramente lá aparecia, porque os pais achavam que a escola não servia para nada, preferiam que ele trabalhasse: esse foi chato… porque depois a polícia foi a casa dele, os pais foram castigados e ele ainda esteve a viver numa instituição durante uns tempos. Nunca mais soube nada dele. Também havia duas raparigas muito faladoras: a Dina e a Sílvia, de quem os rapazes gostavam porque eram mesmo muito giras e achavam-se melhores do que os outros. Eu não percebia por quê, afinal tinham negativas e reprovaram no fim do ano, não deviam ser muito espertas.
Depois, havia o Eurico: o rapaz mais divertido da turma. Sempre que abria a boca, fazia toda a gente rir. Nós nem sabíamos onde é que ele ia arranjar tanta parvoíce para dizer. No primeiro dia de aulas, quando o conhecemos, vimos logo que aquilo ia ser uma animação, porque quando um professor lhe perguntou como se chamava, ele respondeu: “Sou o Eurico, o que não tem papas no bico!” Foi a risota geral!
Mas a verdade é que ao fim de algum tempo, ele perdia um bocado a piada… Nós é que não lhe queríamos dizer, mas tanta palermice, ao fim de algum tempo, também cansa. E depois apareceu o prof de História, que era mesmo muito fixe, e a malta gostava toda dele. Menos o Eurico, claro, que achava que aquelas aulas eram só para abandalhar. O prof Daniel bem conversava com ele, mas nada. E era pena, porque as aulas dele eram mesmo altamente e nessas nós preferíamos ouvir o professor e não o Eurico.
Eu era sossegada: não tinha assim muito boas notas, mas esforçava-me para aprender algumas coisas. Os que normalmente tinham boas notas, andavam a descer, porque o Eurico não deixava ninguém concentrar-se, e os que normalmente alinhavam na risota já estavam a ficar fartos dele, porque na verdade aquilo era sempre a mesma coisa.
Por isso, um dia resolvemos fazer uma reunião de turma e explicar ao Eurico que tinha de parar com aquilo, que já estava a exagerar, até porque a nossa turma já tinha sido castigada pelo comportamento várias vezes, e não era nada fixe ver os outros a participarem em atividades na escola, ou a irem fazer visitas de estudo, e nós: sempre a levar com os sermões do diretor, dos professores todos, e ainda por cima não podíamos participar em nada na escola.
A conversa resultou mais ou menos. Quer dizer, ele não nos ligou nenhum, achou que nós éramos todos uns totós, mas a verdade é que acalmou um bocadito.
E para não vos aborrecer muito deixem-me avançar na história. No outro dia, quando estava a entrar no elevador do meu prédio deparei-me com a nova senhora das limpezas. Nem queria acreditar: era a Dina (uma das giraças, lembram-se?). Palavra puxa palavra e resolvemos fazer, no facebook, um grupo com o pessoal da turma. Agora já somos todos crescidos e alguns estão tão velhos que eu quase nem os conhecia. Mas foi giro reencontrar o pessoal.
A Lisandra, que era a boa aluna, agora é engenheira e trabalha numa marca de carros muito cara! O Leandro, o que quase nunca vinha à escola, estava a trabalhar numa empresa de construção e agora fechou e parece que a coisa está complicada. Eu consegui, com muito esforço e muito trabalho, ir para a universidade e agora sou professora. O Alberto, que parecia meio morcão, tirou o curso de educação física e agora é treinador de uma equipa famosa de hóquei em patins. A Juventina, que tanto se ria com as piadas do Eurico, conseguiu abrir um cabeleireiro e tem o negócio dela. O que quase não aparecia, acho que se chamava Paulo ou Pedro, não sabemos nada dele. A Dina está a trabalhar no meu prédio, como já vos disse, e a Sílvia alguém disse que ela tinha emigrado.
E o Eurico, bem… O Eurico tem na página do facebook a dizer que andou na universidade da vida, o que na verdade quer dizer que não estudou. Encontrei-o aqui há tempos: estava no café a contar anedotas e a beber uma cerveja. Disse-lhe olá e ele ao princípio nem me conheceu. Depois, lá se lembrou e estivemos a conversar. Afinal, parece que não tem emprego fixo, porque ninguém lhe paga pelas piadas que conta no café… Se pagassem, estava rico! Vai arranjando uns biscates e confessou-me que está a pensar regressar à escola, a ver se faz o 12º ano, porque se não a coisa fica complicada.
Eu tenho alguns alunos como o Eurico, o que não tinha papas no bico, e às vezes conto-lhes esta história.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Diário 23 de janeiro 2017
Este novo ano de 2017 muito sol nos tem trazido. Talvez agricultores e outros ajuizados pensem que um inverno assim nos fará pagar caro, mas eu - pobre citadina - aprecio os soalheiros dias curtos deste janeiro fresquinho.
Entre almoços na esplanada, tremoços, cervejas e selfies de fim-de-semana, correm os dias que deste ano já vão em vinte e três. Lá fora anunciam-se tumultos e adivinham-se tempestades, mas por cá - no calor que a lareira ilumina - há paz, talvez até vitórias, desejos e projetos a conquistar.
E sorrisos... a felicidade completa nos pequenos momentos, nas areias que enchem uma vida grande: o meu doce tesouro - atleta estreante de voleibol. No torneio para si inaugural, ganhou a convocatória pela perseverança. O mais certo era não jogar e isso não lhe retirou o entusiasmo. Mas o prémio aumentou, quando foi chamada para diante da rede. Difícil, exigente, as falhas que se previam e depois, em recompensa pela concentração e por não ter esquecido o recado matinal ("Nunca desistas!"), a euforia: dois serviços que foram dois pontos, e o abraço reconhecido das ex-céticas colegas de equipa.
Para ela, uma confirmação: não ter medo e perpetuar o esforço compensa. Para mim, um coração cheio, a transbordar.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
A propósito de uma notícia sobre Luciana Abreu
À MODA ANTIGA VS WEB 2.0
São verdadeiramente um fenómeno dos novos tempos: os comentários às notícias.Quando as notícias eram transmitidas apenas pelos jornais (em papel), pela televisão e pela rádio, os recetores - todos nós - eram elementos passivos do processo de comunicação. Ouvíamos, líamos ou víamos um conjunto de notícias selecionadas pelos referidos meios de comunicação, mas não tínhamos qualquer papel ativo em termos de resposta às mesmas. Ou melhor, os comentários que fazíamos eram privados - falando sozinhos - ou, noutros casos, em família ou pequenos grupos de amigos.
Atualmente, a web 2.0 permite que o recetor seja também emissor, logo pode responder e dar a conhecer os seus comentários a um universo bastante alargado de pessoas: os próprios meios de comunicação e todos os outros recetores. E é sobre este fenómeno que me quero debruçar hoje: os comentários às notícias online.
ADORO COMENTAR
Com a possibilidade de comentarmos as notícias todos aprendemos coisas novas e ainda nos são oferecidas novas funcionalidades, isto é, as notícias deixam de ser apenas informativas para passarem a ter - em potência - uma finalidade lúdica, de entretenimento e, devo acrescentar, de comédia da boa, mesmo boa!
MOTVOS SÉRIOS
Primeiro as coisas sérias: se a uma notícia um leitor comenta acrescentando detalhes importantes, saímos a ganhar em informação e conhecimento - sim, isto acontece.
MOTIVOS MAIS OU MENOS SÉRIOS
Em segundo lugar, as coisas mais ou menos sérias: se um leitor comenta uma notícia desabafando experiências pessoais, ganhamos consciência de que não estamos sozinhos no mundo, sentimo-nos amparados e reconfortados pela identificação com outros elementos da comunidade.
MOTIVOS EXTREMAMENTE SÉRIOS
Por fim, as coisas mesmo - mas mesmo muito - sérias: em muitos casos, os leitores aproveitam os comentários para se insultarem uns aos outros, seja a propósito da opinião que têm sobre a notícia, seja, nos casos mais apurados de estupidez, apenas porque sim. Assim, os leitores como eu - que reservam a opinião para posts no Face ou textos no blogue, nunca usando a possibilidade de comentar as notícias no site onde ela é publicada - ganham uma atividade extra e imensamente enriquecedora: admirar a extensão da estupidez humana ou, verdade seja dita, admirar a extrema inteligência de alguns comentadores (aqui sem ironia).
É mesmo muito divertido passar alguns minutos a ler os comentários que as pessoas fazem às notícias e aos comentários dos outros. Mas como isto se entende melhor a partir de exemplos, passo a descrever a notícia (e respetivos comentários) que motivou este texto: Luciana Abreu e sua mãe.
A NOTÍCIA SOBRE A MÃE DE LUCIANA ABREU
Hoje de manhã, como sempre faço, li as gordas de um ou dois jornais diários. Li a notícia completa em 4 ou 5 casos. E em apenas um, li também os comentários à notícia.
Pela pertinência do assunto, não pude deixar de ler, na íntegra, a notícia que dá conta dos motivos que levaram a mãe de Luciana Abreu a sair de casa da filha. Passo a explicar: a senhora não saiu porque quis, mas porque foi convidada, pela filha, a fazê-lo. E isso faz toda a diferença! (Mais uma vez, sem ironia.) Sinceramente: não é igual decidir sair ou ser convidada a sair. Esta controvérsia é, de facto, pertinente; embora a considere relevante para o universo familiar onde se insere, é de importância zero para o universo das notícias nacionais. Outra vez: claro que é importante esclarecer por que motivos a senhora saiu de casa da filha - para a família mais próxima, com certeza; mas completamente ridículo que isso seja motivo para uma notícia num diário nacional!! De qualquer forma, isto não é nem raro, nem surpreendente: já estamos habituados a este fenómeno.
OS COMENTÁRIOS À NOTIÍCIA
O que pretendo realmente comentar aqui são os comentários à notícia. Coincidentemente, o primeiro comentário à notícia, ganha, a meu ver, o primeiro lugar no pódio dos comentários. O senhor X comentou a notícia apresentando, detalhada e demoradamente a receita completa de polvo à lagareiro. Aí está, tal como eu dizia - sem ironia - a prova de que alguns comentadores são muito inteligentes e os seus comentários importantes para o alargar do conhecimento dos leitores.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Uma história real!
Entrou primeiro o avô. Estava zangado com a neta que o seguia, mas ao longe, atrás da mãe e da avó. Depois entrou também a tia-avó da criança. Eram talvez umas 4 da tarde e tinham ido buscar a menina, talvez com uns 4 anos, à escolinha. Entraram ali, provavelmente num gesto habitual, para lanchar. O pão quente onde estávamos tem muita oferta para um lanche delicioso. Enquanto eu bebi o meu chá de limão - a constipação está em força -, eles sentaram-se numa mesa de quatro, embora fossem cinco. A tia-avó tinha ido à casa de banho e a menina estava sentada ao lado da mãe. O avô continuava zangado: "Não quero conversa contigo! Então eu sou algum monstro para me fugires?" E ela, em jeito de resposta, pôs as duas mãos a tapar os ouvidos e olhou para outro lado. Não há dúvida que a mensagem estava a passar. "Que mal educada" continuava o avô. Quando a menina da confeitaria os foi atender, a criança levantou-se para escolher o que queria lanchar na montra. A mãe acompanhou-a. Entretanto, a avó, fosse por que razão fosse, decidiu sentar-se na cadeira onde tinha estado até ali a pequena. Ao voltar, do alto dos seus 4 anos, disse "Esse lugar é meu!" e continuou "Era eu que estava aí". Para ajudar a passar a mensagem, ia empurrando a avó que só lhe respondia "Senta-te nessa!", ao que a pequena respondia "Sai! Aí sou seu!". A mãe da criança, senhora de vinte e tal anos, de uma educação peculiar, disse: "Ela tem razão, mãe. Era ela que estava aí. Não tinhas nada de te sentar aí. Era o lugar dela." A avó, encurralada entre os empurrões da neta e os reparos da filha, levantou-se e mudou de lugar, devolvendo a cadeira à pequena. Entretanto, a tia-avó, mais nova do que os avós, regressa da casa de banho e arranja uma cadeira numa mesa vizinha, arrastando-a ruidosamente, levando de arrasto uma outra cadeira da mesa ao lado, onde o cliente havia pousado uns óculos e a carteira que quase pararam no chão.
Finalmente, chegaram os pedidos e a menina - de 4 anos, relembro - observou cuidadosamente o seu lanche: uma Coca-Cola e uma Bola de Berlim. Todos lancharam qualquer coisa e sempre que os avós falavam, a criatura tapava os ouvidos. Bebendo a sua Coca-Cola e comendo a sua Bola de Berlim em pequenas garfadas que a tia-avó lhe ia dando, continuava a espalhar charme quando, ao passar, um senhor lhe fez um sorriso e disse: "Que linda!", ao que respondeu com o já habitual gesto de mãos a tapar os ouvidos. O avô, depois de lanchar rapidamente, disse que queria ir embora, levantou-se, foi pagar e informou que esperaria lá fora. A conversa continuou de qualidade elevada. Dizia a avó "Despacha-te a comer, rapariga, o avô está doente e quer ir embora." Ao que a criança, adivinhem!!, respondeu tapando os ouvidos. E então a avó, insistiu, variando "A comer bolos... Só dais merda à criança... Foda-se!" E pronto, a mãe da criança não tapava os ouvidos, mas a atitude não diferia muita da da pequena. A avó, ainda mais indignada, continuava a reforçar: "Despacha a miúda, o teu pai está doente", "Já vai, mãe, foda-se, já ouvi...". A avó levantou-se, e resolveu esperar com o marido lá fora. A tia-avó, perpetuamente silenciosa, continuava a alimentar a Bola de Berlim em pequenas garfadas à doce criatura. A mãe levantou-se e, num ataque súbito e estranho de consciência disse "Anda. Ele quer ir embora. Ainda se chateia!" Foi apertando o casaco e a tia-avó, impávida, continuava, garfada atrás de garfada, a insistir em nutrir a menina. Por fim, levantaram-se todas e dirigiram-se à porta, não sem antes a criança dizer: "Quero fazer xixi!" E os casacos voltaram a ser despidos e lá foi, mãe e filha, à casa de banho. Alguns minutos mais tarde, saíram.
Entretanto, penso que consegui fechar a boca. Queria fazer comentários, mas preferi escrever este texto.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Recomeço
A Eram exatamente 17 horas. A claridade do dia estava a desaparecer e a frescura da noite intensificava os sentidos; era impossível ignorar a passagem do tempo.
A rua estava deserta apenas porque se situava longe do centro de atividades da cidade, era estreita e parecia encolher a cada segundo que passava. Talvez o local não tenha sido escolhido por obra do acaso. Talvez tenha sido selecionado cuidadosamente para que ninguém os visse.
O carro tinha abrandado lentamente e parado ali mesmo, onde ela ainda se encontrava. Havia saído do carro, como lhe ordenaram, e permanecia ainda ali, sem encontrar outro caminho, sem procurar outras decisões.
Talvez haja, de facto, momentos na vida em que não se procuram respostas, nem ações, nem decisões; momentos de pausa sem reflexão. Era assim que ela se encontrava: parada e não apenas fisicamente.
Apesar disso, a luz era cada vez menor e todas as outras pessoas continuavam ausentes. Só a órbita terrestre informava acerca do passar do tempo e contrastava com a quietude de tudo, especialmente dentro de si.
O momento prolongou-se até à escuridão total que, estranhamente, lhe despertou os sentidos. Mexeu os olhos como se os tivesse acabado de abrir e enxergou apenas uma alma: a sua - redescoberta no silêncio que a envolveu aqueles minutos (horas?) que permanecera ali, assim.
O carro que a tinha deixado ali levara os companheiros das horas más, os parceiros das escolhas malignas que havia feito no passado. Olhou para o fundo da rua, como se o carro pudesse estar ainda a desaparecer e decidiu, por fim, avançar. Decidiu que os dias de abandono em substâncias que a retiravam da realidade só lhe traziam uma outra realidade: muito pior do que à que ela tentava escapar. Era cedo. E ainda havia tempo. Violada no corpo e na alma acordou. Pensava que poderia não ter passado por tudo aquilo, que preferia não ter passado por nada daquilo (nem os momentos de indescritível e efémero prazer), porque nada era maior do que a perda da alma. Desrespeitada e quebrada.
Tinha 17 anos. Estava sozinha.
Decidiu recomeçar.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Decisões e certezas (I)
Duas das grandes e maiores decisões da minha vida foram tomadas sem certezas absolutas, ou pelo menos, sem o grau de certeza que vi em outras pessoas perante as mesmas situações. Correndo o risco de me considerarem uma aberração, disparo: ser professora e ser mãe. E agora, se me permitem, explico-me e justifico-me.
Tomei a decisão de ser mãe já depois dos 25 anos, até lá a maternidade não fazia propriamente parte dos meus planos, nem achava que tal condição teria de existir na minha vida para que me sentisse completa ou realizada. Aliás, lembro-me de ter uns 15 ou 16 anos e de, à mesa, em família, ter afirmado que talvez não quisesse vir a ser mãe. Não recordo a reação da minha mãe se é que houve alguma; mas a do meu pai... De tão incisiva e assertiva nunca me esqueci dela. A minha afirmação causou-lhe tamanha indignação que me surpreendeu. Claro que, naquela idade, o efeito foi precisamente o contrário, isto é, o meu pai proibiu-me, praticamente, de repetir tamanho disparate e isso só me deu vontade de o repetir vezes sem conta. Na verdade, eu nem sequer disse que não queria ser mãe, só admiti essa possibilidade, mas a reação dele fez-me pensar que essa minha decisão parecia, naquele momento, muito pouco minha. Quando ouço mulheres indignadas por lhes ser constantemente perguntado quando chegam os rebentos, como se de uma obrigação se tratasse, desconfio que sentem o mesmo que eu senti aos 15 anos naquela mesa de jantar.
O meu pai ainda era caloiro na condição de pai de uma teenager, caso contrário saberia que os adolescentes pensam que já sabem tudo e que quanto mais controverso o tema mais apetecível se torna. A minha mãe, professora, conhecia-me um pouco melhor. Além disso, penso que o meu pai até deveria ter ficado feliz com aquela minha afirmação; afinal, qual pai de adolescente não ficará feliz em saber que a filha não quer ser mãe??
Passou talvez uma década até que a ideia da maternidade começasse a ganhar alguma forma, e passasse de uma probabilidade a um desejo. Confesso, porém, que o desejo se revestia de imensas dúvidas e perguntas. Eu não tinha a certeza absoluta de que gostaria de ser mãe, ou pior, se estaria à altura do cargo! O meu modelo tinha sido o melhor de todos, tão bom que me criara esta capacidade de equacionar, refletir, pensar e tomar decisões em consciência. Aos 29 decidi e, felizmente, aconteceu: engravidei.
As afamadas maravilhas da maternidade darão muitos outros textos, mas no de hoje cabe apenas dizer que o momento em que a Mafalda se deitou no lado de fora do meu ventre, naquele segundo em que os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez, eu tive a certeza de que aquele seria o meu papel principal nesta vida. Curiosamente, e isto é rigorosamente a verdade, a enfermeira que puxou a minha filha para o mundo, e com quem eu tinha desenvolvido uma relação bastante divertida nas últimas 3 ou 4 horas, deixou, premonitoriamente, de me chamar Filomena e passou a chamar-me Mafalda. Naquele momento, a Filomena tinha, de facto, desaparecido, ou pelo menos nunca mais seria a mesma.
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
Como aprendi a ser equilibrada
A história que vos vou contar passou-se, provavelmente, quando eu tinha 7 anos. Há momentos que não são fáceis de assinalar com precisão no tempo, por fazerem parte da amálgama de memórias que ficam algures entre os 4 e os 9 anos. Depois dessa idade, começa a ser mais fácil organizar os separadores das memórias, mas até então, as recordações são como um conjunto de folhas soltas e desorganizadas em cima de uma secretária. Do topo dessa secretária, hoje retiro uma das folhas.
Em todas as minhas memórias de infância há um denominador comum que não posso nunca obliterar: o meu irmão - chegado a casa quando eu tinha apenas 13 meses, não me lembro sequer de um dia da minha vida sem ele. O meu pai e a minha mãe educaram-nos de forma igual, embora os resultados, pelo menos os aparentes, sejam bem diferentes.
Eu era a tagarela dentro e fora de casa, uma simpatia. Ele era o tímido, o sossegado, mas apenas fora de casa. Por isso, na prática, em casa éramos os dois uns fala-baratos que não deixávamos espaço para o silêncio reinar.
Fora de casa, a educação que recebíamos obrigava-nos a uma maior contenção. Embora eu fosse mais extrovertida do que ele, ambos primávamos pelo bom comportamento em qualquer situação, mais ou menos formal. Esse comportamento modelar foi resultado de castigos bem aplicados, palmadas no sítio e momentos certos, e de muitos olhares. Os olhares da minha mãe - como de muitas, eu sei - era o suficiente, na maior parte das vezes.
Um dia, porém, por causa de alguma situação em que a nossa contenção se terá confundido com tacanhez e falta de capacidade de desenrasque, a minha mãe dissertou acerca da necessidade de sermos mais despachados.
- Que atadinhos! Têm que se safar! - ainda me lembro de a ouvir dizer.
Aquilo reverberou em mim durante uns tempos. Eu não queria nada ser uma atadinha!
Pouco tempo depois, numa consulta médica em que estávamos todos presentes, enquanto os meus pais conversavam com o senhor doutor, eu achei por bem pôr em prática a minha nova faceta de ser uma menina despachada. Não sei muito bem as interpretações intelectuais que terei feito na altura desta dicotomia atada / despachada, mas lembro-me de deliberadamente começar a mexer em tudo quanto era material na secretária do médico. Levantei alguns papéis, mexi num objeto ou noutro, inspecionei algum material que por ali estava espalhado: enfim, estava a ser exatamente o contrário do que seria uma atadinha!
Penso que o médico terá olhado para mim, mas isso pouco me importou. O pior foi quando cruzei o olhar com o da minha mãe.
Ali, numa pequena fração de segundo, percebi com a maior facilidade o significado de "nem 8 nem 80".
E foi assim que aprendi a ser equilibrada. Sim?
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