Princípio Meio e Fi
A maioria dos textos aqui publicados são ficção. Pontualmente, episódios da minha vida parecem espreitar nas entrelinhas. Não são ficção os textos de opinião.
sexta-feira, 27 de março de 2020
Isolamento para professores
Os tempos que vivemos são diferentes, já o sabemos. Mas é assim mesmo a vida: um conjunto de acontecimentos que tentamos programar, mas que sempre têm a capacidade de nos surpreender. Como em todos os outros dias, penso no lado positivo de tudo: na felicidade de ter uma família - restrita e alargada - coesa e quente; no contentamento de ter amigos que - ainda que ao longe - são insubstituíveis e incríveis; na sorte de conseguir ter um lar com vista para a natureza, para o sol, para a água, para aquilo que nos oferece tranquilidade; na fortuna de possuir os conhecimentos e os meios para estar sempre a apertar os nós que me unem ao mundo - através dos livros, das tecnologias e, acima de tudo, dos amigos que tenho espalhados pelo mundo. Mas - e provavelmente num patamar superior - no privilégio de ser professora neste momento da história. Somos nós os elos imprescindíveis entre os nossos alunos e a realidade. Temos saudades deles e queremos conseguir prendê-los ao mundo. As semanas que se aproximam não são de descanso, como gostaríamos e precisamos até: são semanas de trabalho de planificação, programação e adaptação. Vamos conseguir! Quanto mais vejo, mais acredito. Queridos alunos, e respetivos pais, descansem... as escolas vão conseguir, os professores são capazes. Não vamos agradar a todos e vamos cometer erros, mas não estaremos de braços cruzados.
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
O último teste
Está quase a tocar e eu tenho de estar muito concentrada para
conseguir fazer o teste sem enganos, sem asneiras, organizado e
certeiro. As férias estão quase a chegar e este é só mais um esforço
para que tudo corra bem. Saturno, Júpiter, Neptuno. Latitude.
Meridiano... Ai... Está tudo a misturar-se dentro de mim. As galáxias
com as montanhas, os planetas com os rios. Chega! Vou desligar o cérebro
e não penso mais nisto. Quando lá chegar logo se vê. Vou fazer como o
Manel e divertir-me sem stress. Afinal, é só um teste. Só um teste... Só
um teste!!!
Não foi assim tão mau. Afinal aquilo até estava escrito em português... É a minha língua! Que raio! Vou tirar boa nota, tenho a certeza. Claro que entretanto já queimei dois ou três neurónios com o nervoso enquanto o Manel continua divertido e animado. Um dia ainda hei-se saber ser assim. Claro que as notas dele não são como as minhas. Eu tiro sempre melhores notas... Mas, na verdade, isso interessa para quê? Fico mais rica? Mais esperta? Ou não... Se calhar sim. Quero acreditar que fico mais esperta e isso fará de mim mais rica um dia. E isso que importa? Andam sempre a dizer que o que interessa é ser feliz. Melhor nota a Geografia quer dizer que serei mais feliz?? Duvido... Cada vez que penso no Universo fico é mais confusa... e assustada! Uma bola suspensa à volta do Sol. E se caímos? Agarramo-nos onde? Aos meridianos ou aos trópicos?!
Acabou! Não penso mais nisso! O teste até já acabou e agora vou relaxar, espreitar o Luís do 9ºD a ver se ele hoje olha para mim e depois vou ao bar comer qualquer coisa. Lá está o Manel, sempre o primeiro da fila para comer. Isso é que ele é, sempre divertido e sempre de barriga cheia. Se calhar é esse o segredo. Vou lanchar a ver se me animo.
- Pára de me chatear, Maria! Não vou falar mais no teste. Estou a comer a minha nata e concentrada nas maravilhas que estas calorias vão fazer pela minha boa disposição! Já viste o Luís? Anda. Vamos lá ver se ele hoje olha para mim...
Está ali ao fundo... A falar com a Teresa! Aquela enjoada. Não percebo qual é a graça daquela miúda. Só porque tem o cabelo loiro acha que é muito bonita... Ou os outros é que acham, sei lá. Vou passar mesmo à frente. Se ele não olhar para mim, nunca mais penso nele! Prometo.
Estou quase. Ele está ali. Vou passar. Não vou olhar. A Teresa já está a ir embora. E...
- Filipa!
Ai... Estão a chamar por mim. Ele está a chamar por mim. É o Luís! Não acredito, é mesmo a voz dele.
- Filipa, correu bem o teste de Geografia?
Lá lhe respondi que sim e acabei a falar na porcaria do teste outra vez. Já não é mau: melhor isto do que ele nem ter olhado para mim. Agora é só pensar noutras estratégias e sei que vou ser feliz. Com testes ou sem testes.
E depois vi o Manel. Estava feliz, claro. Preparadíssimo para as férias. Com boas notas ou más notas. Para ele era igual.
Saímos todos a correr, o portão grande estava fechado e o Manel estava a tentar abri-lo. Mas não conseguia. Pudera! A empurrar pela parte mais próxima das dobradiças... “Ca” burro!
- Ó Manel! Aplicas menos força quanto mais longe empurrares da dobradiça. Básico! Aprendemos em Físico-química. Ora vê! - E o portão abriu-se rapidamente e sem esforço. O Manel, divertido, a olhar para mim. E o Luís, a passar por mim, impressionado.
E eu, na certeza de que estudar me faria mais feliz, fui de férias. Não pensei mais nos testes, mas pensei muito no Luís.
Não foi assim tão mau. Afinal aquilo até estava escrito em português... É a minha língua! Que raio! Vou tirar boa nota, tenho a certeza. Claro que entretanto já queimei dois ou três neurónios com o nervoso enquanto o Manel continua divertido e animado. Um dia ainda hei-se saber ser assim. Claro que as notas dele não são como as minhas. Eu tiro sempre melhores notas... Mas, na verdade, isso interessa para quê? Fico mais rica? Mais esperta? Ou não... Se calhar sim. Quero acreditar que fico mais esperta e isso fará de mim mais rica um dia. E isso que importa? Andam sempre a dizer que o que interessa é ser feliz. Melhor nota a Geografia quer dizer que serei mais feliz?? Duvido... Cada vez que penso no Universo fico é mais confusa... e assustada! Uma bola suspensa à volta do Sol. E se caímos? Agarramo-nos onde? Aos meridianos ou aos trópicos?!
Acabou! Não penso mais nisso! O teste até já acabou e agora vou relaxar, espreitar o Luís do 9ºD a ver se ele hoje olha para mim e depois vou ao bar comer qualquer coisa. Lá está o Manel, sempre o primeiro da fila para comer. Isso é que ele é, sempre divertido e sempre de barriga cheia. Se calhar é esse o segredo. Vou lanchar a ver se me animo.
- Pára de me chatear, Maria! Não vou falar mais no teste. Estou a comer a minha nata e concentrada nas maravilhas que estas calorias vão fazer pela minha boa disposição! Já viste o Luís? Anda. Vamos lá ver se ele hoje olha para mim...
Está ali ao fundo... A falar com a Teresa! Aquela enjoada. Não percebo qual é a graça daquela miúda. Só porque tem o cabelo loiro acha que é muito bonita... Ou os outros é que acham, sei lá. Vou passar mesmo à frente. Se ele não olhar para mim, nunca mais penso nele! Prometo.
Estou quase. Ele está ali. Vou passar. Não vou olhar. A Teresa já está a ir embora. E...
- Filipa!
Ai... Estão a chamar por mim. Ele está a chamar por mim. É o Luís! Não acredito, é mesmo a voz dele.
- Filipa, correu bem o teste de Geografia?
Lá lhe respondi que sim e acabei a falar na porcaria do teste outra vez. Já não é mau: melhor isto do que ele nem ter olhado para mim. Agora é só pensar noutras estratégias e sei que vou ser feliz. Com testes ou sem testes.
E depois vi o Manel. Estava feliz, claro. Preparadíssimo para as férias. Com boas notas ou más notas. Para ele era igual.
Saímos todos a correr, o portão grande estava fechado e o Manel estava a tentar abri-lo. Mas não conseguia. Pudera! A empurrar pela parte mais próxima das dobradiças... “Ca” burro!
- Ó Manel! Aplicas menos força quanto mais longe empurrares da dobradiça. Básico! Aprendemos em Físico-química. Ora vê! - E o portão abriu-se rapidamente e sem esforço. O Manel, divertido, a olhar para mim. E o Luís, a passar por mim, impressionado.
E eu, na certeza de que estudar me faria mais feliz, fui de férias. Não pensei mais nos testes, mas pensei muito no Luís.
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
T2+1 com vista sobre a cidade
Cá estou. São 7 da manhã e o cheiro neste elevador já está insuportável. Maldita a hora em que achei o 15º andar a última bolacha do pacote. Está decidido, hoje passo na imobiliária e ponho isto à venda. Basta de vistas sobre a cidade! Basta de horizontes infinitos! Basta de pessoinhas lá em baixo como formigas! Basta de pagar este condomínio infernal! Basta!
Todos os dias um episódio diferente, se eu quisesse viver numa novela ficava em casa a ver televisão. Mas o que terá sido desta vez? É cheiro a mar? A sargaço? Há algo aqui que não está bem.
Não aguento mais! Stop!! Estou no 7º andar e a partir daqui desço a pé.
A porta abre-se - abrupta - e o ar que entra limpa-me a narinas e eu agradeço. Mas a corrente de ar faz levantar do chão uma pena. Uma pena? Não é possível que o episódio de hoje tenha uma pena...
Desço as escadas, incomodada. O cheiro afinal não estava fechado no elevador e pelas escadas encontro outras penas. Mais penas? No 5º andar, um pouco depois de tirar os sapatos para conseguir descer em segurança, encontro... incrédula: duas gaivotas! Aninhadas no tapete do 5º direito traseiras, pote de água, pote de arroz. O cheiro a inferno e a postura de ataque. Os bicos ameaçadores enfrentaram-me e eu defendi-me. Atirei-lhes os sapatos, desci a correr.
Na imobiliária, acrescentei: “É excelente, vistas sobre a cidade, horizontes infinitos e uma sensação de ter a natureza dentro de portas! A não perder!”
quinta-feira, 21 de junho de 2018
Perdoa-me se não te vejo
De que servem uns olhos se não os uso como deve ser?
Não são uns olhos que me fazem ver, são os olhos que escolho e teimo em privilegiar. Não há obrigatoriedade no uso dos que estão no rosto, podem servir ou não para o que precisamos de enfrentar. Eu escolho teimosamente os outros, os que não se vêem mas que vêem. Escolho olhar-te e encontrar um raio de luz, um som de trompete ou as teclas de um piano. És música e perfeição, ritmo, cores intensas e outras vezes apenas pastel. Não és todos os dias igual. Ontem eras uma montanha que se pode percorrer para sempre, hoje és o mar que apetece provar.
Não vejo os fios de cabelo, vejo linhas de tempo intermináveis. Não vejo as unhas em formas irregulares, vejo toques e carícias e luas de várias formas. Não vejo sinais espalhados à toa, vejo raízes e ramos e folhas e frutos que só tu consegues ser.
Olho-te e trespasso-te com desejos e sonhos e doces vontades. Desculpa se não vejo que às vezes também és só um ser humano. Desculpa se não deixo que erres o passo.
Perdoa-me se não te vejo com os olhos do rosto e só com os olhos da saudade.
Não são uns olhos que me fazem ver, são os olhos que escolho e teimo em privilegiar. Não há obrigatoriedade no uso dos que estão no rosto, podem servir ou não para o que precisamos de enfrentar. Eu escolho teimosamente os outros, os que não se vêem mas que vêem. Escolho olhar-te e encontrar um raio de luz, um som de trompete ou as teclas de um piano. És música e perfeição, ritmo, cores intensas e outras vezes apenas pastel. Não és todos os dias igual. Ontem eras uma montanha que se pode percorrer para sempre, hoje és o mar que apetece provar.
Não vejo os fios de cabelo, vejo linhas de tempo intermináveis. Não vejo as unhas em formas irregulares, vejo toques e carícias e luas de várias formas. Não vejo sinais espalhados à toa, vejo raízes e ramos e folhas e frutos que só tu consegues ser.
Olho-te e trespasso-te com desejos e sonhos e doces vontades. Desculpa se não vejo que às vezes também és só um ser humano. Desculpa se não deixo que erres o passo.
Perdoa-me se não te vejo com os olhos do rosto e só com os olhos da saudade.
quarta-feira, 14 de março de 2018
A minha própria síndrome do ninho vazio
A propósito de um texto que vai circulando por aí acerca da síndrome do ninho vazio, mas do ponto de vista dos filhos, mais especificamente, de uma filha.
Eu era uma filha muito agarrada ao ninho, quer dizer, mais agarrada às asas da mãe do que propriamente ao ninho; ainda assim presa aos confortos de mãe, pai e irmão e às rotinas que cultivávamos. Ao sábado era o dia das limpezas e aos domingos íamos almoçar fora, durante a semana à noite a mãe cozinhava e eu ficava por ali, a conversar - muito -, a contar tudo o que acontecia na escola (e também o que eu gostava que acontecesse e o que não acontecia e ainda o que eu imaginava que podia acontecer)! Mas enquanto falava, observava. Quase nunca cozinhei, nem me lembro de ter sido ensinada formalmente a cozinhar, mas eu estava sempre ali, a ajudar, a aprender sem saber.
Quando saí do ninho, aos 18 anos, não me lembro de ter sofrido de qualquer síndrome, nem sequer de pensar se a minha mãe estaria a passar por isso.
Eu tinha 18 anos. Fui viver sozinha a 100km de distância do ninho. Almoçava na cantina da universidade e tentava cozinhar ao jantar, ia para as aulas e tentava fugir a algumas praxes. Ia jogar snooker ou flippers para o salão de jogos, ficava a estudar até tarde, ia a jantares ou só tomar um café, participava em grupos de tertúlias e ia até casa de colegas. Ia aos ensaios do coro e dávamos concertos pela rua. Eu punha a roupa na máquina e tentava lembrar-me de a estender e, aos fins-de-semana, voltava ao ninho, às vezes de surpresa!
Não havia telemóveis nem bips, e a cabine telefónica mais perto de minha casa ficava a cerca de 300 metros com 50 degraus (a subir) pelo caminho. Fazia coleção de credifones e adorava o 090 para fazer chamadas a pagar no destino.
Tinha colegas do Porto, de Chaves, de Santarém, de Lisboa, do Algarve, de Braga... Colegas mais velhos e outros da mesma idade, havia serões infinitos de partilha de experiências e de conversas completamente novas: éramos adultos - coisa recente - e achávamos que coversávamos sobre assuntos que eram importantes. E eram.
Ao fim-de-semana, o ninho estava igual: com mãe, pai e irmão. Com amigos que, em alguns casos, também só voltavam à sexta-feira e saíamos para partilharmos copos, conversas e experiências.
Foi um ano de descobertas, de conquistas, de aprendizagens. E a partir de certa altura também de alguns medos. A minha mãe estava doente e deixara de trabalhar. Passava temporadas na cama e outras no hospital. As rotinas estavam temporariamente - acreditava - alteradas.
Acho que eu não tive tempo para sentir o ninho vazio: havia tanta coisa para fazer, tanto para estudar, tanto para aprender. E o ninho estava onde sempre esteve. E eu regressava, e aninhava.
Acho que não tive sequer tempo para pensar no que o ninho perdia pelo facto de eu estar ausente.
Um dia regressei... E o ninho estava de facto vazio.
Felizmente soubemos preenchê-lo de novo. Nunca mais ficou igual, mas conseguimos construir um outro, pleno de sorrisos, de felicidade.
Eu era uma filha muito agarrada ao ninho, quer dizer, mais agarrada às asas da mãe do que propriamente ao ninho; ainda assim presa aos confortos de mãe, pai e irmão e às rotinas que cultivávamos. Ao sábado era o dia das limpezas e aos domingos íamos almoçar fora, durante a semana à noite a mãe cozinhava e eu ficava por ali, a conversar - muito -, a contar tudo o que acontecia na escola (e também o que eu gostava que acontecesse e o que não acontecia e ainda o que eu imaginava que podia acontecer)! Mas enquanto falava, observava. Quase nunca cozinhei, nem me lembro de ter sido ensinada formalmente a cozinhar, mas eu estava sempre ali, a ajudar, a aprender sem saber.
Quando saí do ninho, aos 18 anos, não me lembro de ter sofrido de qualquer síndrome, nem sequer de pensar se a minha mãe estaria a passar por isso.
Eu tinha 18 anos. Fui viver sozinha a 100km de distância do ninho. Almoçava na cantina da universidade e tentava cozinhar ao jantar, ia para as aulas e tentava fugir a algumas praxes. Ia jogar snooker ou flippers para o salão de jogos, ficava a estudar até tarde, ia a jantares ou só tomar um café, participava em grupos de tertúlias e ia até casa de colegas. Ia aos ensaios do coro e dávamos concertos pela rua. Eu punha a roupa na máquina e tentava lembrar-me de a estender e, aos fins-de-semana, voltava ao ninho, às vezes de surpresa!
Não havia telemóveis nem bips, e a cabine telefónica mais perto de minha casa ficava a cerca de 300 metros com 50 degraus (a subir) pelo caminho. Fazia coleção de credifones e adorava o 090 para fazer chamadas a pagar no destino.
Tinha colegas do Porto, de Chaves, de Santarém, de Lisboa, do Algarve, de Braga... Colegas mais velhos e outros da mesma idade, havia serões infinitos de partilha de experiências e de conversas completamente novas: éramos adultos - coisa recente - e achávamos que coversávamos sobre assuntos que eram importantes. E eram.
Ao fim-de-semana, o ninho estava igual: com mãe, pai e irmão. Com amigos que, em alguns casos, também só voltavam à sexta-feira e saíamos para partilharmos copos, conversas e experiências.
Foi um ano de descobertas, de conquistas, de aprendizagens. E a partir de certa altura também de alguns medos. A minha mãe estava doente e deixara de trabalhar. Passava temporadas na cama e outras no hospital. As rotinas estavam temporariamente - acreditava - alteradas.
Acho que eu não tive tempo para sentir o ninho vazio: havia tanta coisa para fazer, tanto para estudar, tanto para aprender. E o ninho estava onde sempre esteve. E eu regressava, e aninhava.
Acho que não tive sequer tempo para pensar no que o ninho perdia pelo facto de eu estar ausente.
Um dia regressei... E o ninho estava de facto vazio.
Felizmente soubemos preenchê-lo de novo. Nunca mais ficou igual, mas conseguimos construir um outro, pleno de sorrisos, de felicidade.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Lara (um rascunho)
O meu nome é Lara. Muitas vezes me dizem que ao olhar para mim veem a minha mãe. Eu própria, por vezes, nos dias em que estou mais bonita, vejo o rosto dela refletido no espelho. Não é nada de único ou inaudito, talvez apenas uma consequência lógica de genes, cromossomas, momentos de partilha e amor. Puro amor.
Tenho, fisicamente, algumas semelhanças com o meu pai, e algumas das minhas saudáveis manias aprendi-as com ele. Há no meu pai uma extrema capacidade de adaptação que eu julgo ter herdado, embora no caso dele a adaptação venha de uma natural aceitação da realidade, enquanto no meu caso ela venha do fascínio que a vida me provoca.
Contudo, as semelhanças físicas são, de facto, predominantemente com a minha mãe; exceção feita aos olhos verdes que não me tocaram em sorte. No que se refere à personalidade, posso, com alguma propriedade, dizer que herdei inúmeros traços dela, embora algumas características se tenham, provavelmente, aguçado e provocado aquilo que ela algumas vezes caracterizava e sublinhava como 'Que feitio!...'
Penso, talvez em demasia, nas razões que me levam a ser como sou e se estes meus dramas e loucuras vieram já no pacote inicial, ou se foram adquiridos ao longo da vida como faixas bónus. Desconfio das prescrições astrológicas que me ameaçam uma personalidade demasiadamente afetiva e emotiva, como se as tentativas voluntárias e trabalhosas de desenvolvimento de técnicas de autocontrolo fossem completamente inúteis.
Felizmente, horas a fio de isolamento por condução no meu carro para o trabalho deram-me a oportunidade de milhares de minutos de profunda meditação, nas quais atingi um estado de plenitude altamente invejável. Devo-o claramente à crise que se instalou no sistema educativo português, que, procurando professores com alto nível de estabilidade emocional, promove estes, digamos, SPAs itinerantes. Felizmente, sou uma excelente condutora e tenho tido a oportunidade de conhecer paisagens invejáveis e indescritíveis. E é, principalmente, nesses momentos que encaro com toda a honestidade as minhas particularidades de personalidade. Aceito, por vezes até com um certo orgulho, o meu, esclareçamos, mau feitio, porque o entendo como parte integrante do que sou sem que - isso, sim, incomodar-me-ia - prejudique os que me rodeiam.
Discorro frequentemente em textos diarísticos e extremamente íntimos, na esperança de um dia serem absolutamente necessários para procurar as razões que desvendem a origem dos meus atos, atitudes ou, na onda do espiritualismo, do meu karma. Não posso, em caso algum, acreditar que são suficientes e, nessa demanda, provavelmente inútil, encontro a necessidade deste texto que agora enceto.
Desvendo, então, um dos objetivos deste texto: explicar aos que me amam as razões do meu 'Que feitio!...'. Como se tornará evidente, este não será, porém, o objetivo principal.
As estórias que compõem um conjunto de vidas entrelaçadas são sempre demasiado complexas para poderem ser transmitidas em todo o seu esplendor através dos relatos orais, ou mesmo de alguns escritos, e muito menos por aquilo que a memória nos deixa trazer para o presente. Lembro-me bem (temos sempre algumas memórias que são claras) de alguém (não me recordo agora quem) me ter dito que nós alteramos as nossas próprias memórias em função do que nos convém a determinada altura da vida, mas que, mais tarde, de tanto repetirmos uma memória não real mas alterada, acreditamos nela ao ponto de a conseguirmos visualizar na tela cinematográfica que trazemos naturalmente incorporada. Isto significa que, quando digo à minha filha que tive sempre boas notas, que estudava imenso, que era extremamente responsável, que nunca terá sido necessário um professor chamar-me a atenção, poderei não estar a contar toda a verdade, embora eu, remexendo os ficheiros mentais da minha vida académica, encontre apenas aquilo que lhe digo. Numa situação ou outra, ao referir estes factos à minha filha na presença do meu pai, posso ter ouvido, como quem não quer a coisa e devidamente afastados da infante, que em tempos também tivera um recadinho na caderneta, ou levara uma palmadinha por algum ato menos responsável.
Não quero, de forma alguma, dizer que apaguei ou alterei todas a minhas memórias que mostram um lado de mim um pouco mais negativo, quis apenas realçar como por vezes nos enganamos a nós próprios para podermos ter as armas absolutamente necessárias num determinado momento da vida.
E esta é uma questão importante. As armas. É impossível ter uma passagem pela vida mais ou menos harmoniosa se não a encararmos como uma luta onde possuir armas adequadas se revela absolutamente fundamental. A memória é uma delas; uma das mais importantes, pese embora a falsidade que por vezes revelam.
Posto isto, procurarei fundamentar estas minhas recordações em alicerces variados, para não me cingir à minha memória que, como eu própria tenho vindo a descobrir, nem sempre me é leal.
Tenho 46 anos. Acredito que mais de metade da minha vida está já vivida e penso que consegui, há poucos anos, encontrar a tranquilidade necessária para vivê-la em plenitude, isto é, perceber quais as armas que me fazem atingir vitórias diariamente. Teriam sido bastante úteis para evitar os trabalhos forçados que tive que desenvolver no passado, mas não as possuía na altura, ou eram ainda tão rudimentares que poucos benefícios me traziam.
O caminho que percorri até aqui chegar foi repleto de acontecimentos, como na vida de qualquer pessoa (suponho), mas estas minhas estórias - penso, por vezes - parecem ter sido delineadas por algum criativo com necessidades de afirmação!
Começo, então, pelo início, não o meu, mas aquele que, de alguma forma, viria a possibilitar a minha existência, a moldar o meu caminho, a influenciar as minhas decisões. Será possível, será mesmo possível que as minhas decisões tenham sido influenciadas por acontecimentos de há décadas atrás? Claro que sim, é o que acontece a toda hora, é o mais comum dos eventos: decisões influenciadas por séculos de história, por gerações de hábitos, por erros inesquecíveis, ou mesmo por sucessos invejados, ou simplesmente desejados.
terça-feira, 24 de outubro de 2017
Revolta fora do Revolto
Quantas vezes já comecei um texto por "Sou professora"? Muitos! E este é mais um.
Sou professora. Já não sou contratada, é verdade; agora pertenço aos quadros do Ministério da Educação. Ao fim de 20 anos de serviço! 20!
Talvez a frase não precise de ponto de exclamação, uma vez que em Portugal aquela afirmação não é uma exclamativa, apenas declarativa, normal, banal, ordinária.
Assim, ao fim de 20 anos, consegui integrar os quadros e começar uma carreira que, por pouco, me escapava por entre os dedos. Finalmente, professora com possibilidade de um trabalho contínuo, sério, estruturado, organizado, bem planeado, a médio e longo prazo. Finalmente numa escola por um período de, pelo menos, 4 anos...
Como diz a minha filha: "Só que não...!"
Pois não. Para conseguir ficar nos quadros tive que arriscar ir para longe da minha casa. Arrisquei. Foi a minha opção. Eu e a minha família achámos que era melhor isto do que a certeza do subsídio de desemprego em setembro, melhor do que a incerteza do tamanho do ordenado quando ficasse colocada. Arrisquei. Foi a minha (nossa) escolha. Porque escolhas destas são sempre da família.
E assim estaria, conformada com a minha decisão, a lecionar em Lisboa, a 300km do meu (P)porto. A 3 horas de distância da minha filha, do meu marido, do meu pai, do meu irmão, do meu sobrinho, da minha família, dos meus amigos que são tanto quanto família. Sim, tive a sorte de até agora nunca estar muito longe deles. Também tinha sido essa a minha escolha: contratada, só perto dos meus.
Infelizmente, esta história não se resume a escolhas. Antes assim fosse. Fiquei colocada em Lisboa, por decisão injusta do Ministério, enquanto colegas menos graduados (dos quadros - como eu) ficaram mais perto de casa. E agora, condenada, aceito. Porque pelos visto não é possível fazer-se justiça. Porque pelos vistos o Estado é obrigado a dar proteção e defesa a um criminoso, mas pode maltratar professores. E ninguém se importa. Ninguém se importa.
Este princípio (de ano, de carreira, de solidão, de medo) ainda não vai a meio, mas tem Fi. E isso significa que tenho trabalho, que adoro os meus alunos, que concretizo um projeto que me está a encantar, que gosto dos colegas que conheci nesta nova escola. Que tenho amigos que resistem a todos os quilómetros, que tenho uma família de ouro. Que sou feliz. Feliz, porque mesmo a 300km, cada minuto significa vida. E amor.
É uma revolta, fora do Revolto.
Sou professora. Já não sou contratada, é verdade; agora pertenço aos quadros do Ministério da Educação. Ao fim de 20 anos de serviço! 20!
Talvez a frase não precise de ponto de exclamação, uma vez que em Portugal aquela afirmação não é uma exclamativa, apenas declarativa, normal, banal, ordinária.
Assim, ao fim de 20 anos, consegui integrar os quadros e começar uma carreira que, por pouco, me escapava por entre os dedos. Finalmente, professora com possibilidade de um trabalho contínuo, sério, estruturado, organizado, bem planeado, a médio e longo prazo. Finalmente numa escola por um período de, pelo menos, 4 anos...
Como diz a minha filha: "Só que não...!"
Pois não. Para conseguir ficar nos quadros tive que arriscar ir para longe da minha casa. Arrisquei. Foi a minha opção. Eu e a minha família achámos que era melhor isto do que a certeza do subsídio de desemprego em setembro, melhor do que a incerteza do tamanho do ordenado quando ficasse colocada. Arrisquei. Foi a minha (nossa) escolha. Porque escolhas destas são sempre da família.
E assim estaria, conformada com a minha decisão, a lecionar em Lisboa, a 300km do meu (P)porto. A 3 horas de distância da minha filha, do meu marido, do meu pai, do meu irmão, do meu sobrinho, da minha família, dos meus amigos que são tanto quanto família. Sim, tive a sorte de até agora nunca estar muito longe deles. Também tinha sido essa a minha escolha: contratada, só perto dos meus.
Infelizmente, esta história não se resume a escolhas. Antes assim fosse. Fiquei colocada em Lisboa, por decisão injusta do Ministério, enquanto colegas menos graduados (dos quadros - como eu) ficaram mais perto de casa. E agora, condenada, aceito. Porque pelos visto não é possível fazer-se justiça. Porque pelos vistos o Estado é obrigado a dar proteção e defesa a um criminoso, mas pode maltratar professores. E ninguém se importa. Ninguém se importa.
Este princípio (de ano, de carreira, de solidão, de medo) ainda não vai a meio, mas tem Fi. E isso significa que tenho trabalho, que adoro os meus alunos, que concretizo um projeto que me está a encantar, que gosto dos colegas que conheci nesta nova escola. Que tenho amigos que resistem a todos os quilómetros, que tenho uma família de ouro. Que sou feliz. Feliz, porque mesmo a 300km, cada minuto significa vida. E amor.
É uma revolta, fora do Revolto.
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